Maratona Atari – YAR’S REVENGE (1981)

E vamos para mais uma etapa da nossa Maratona Atari, a nossa intrépida iniciativa de jogar e resenhar TODOS os games do Atari 2600 lançados comercialmente nos anos de ouro da segunda geração dos videogames. Para sacodir um pouco as coisas, nós vamos provisoriamente deixar de lado a ordem alfabética que estávamos seguindo até aqui e prosseguir, nas próximas etapas, de uma forma um pouco mais anárquica (ou seja, jogando o que der na telha).

Howard Scott Warshaw foi um programador muito peculiar dentro da história do saudoso Atari 2600, o pai de todos os videogames contemporâneos. Por um lado, ele é o criador do infame E.T – The Extra-Terrestrial, amplamente considerado o pior jogo do Atari, um dos piores jogos de todos os tempos e um dos motivos que levaram o mercado norte-americano de videogames a quebrar no ano de 1983. Se você eventualmente desconhece a desgraça que foi esse game do E.T e o quanto ele se tornou uma lenda e um sinônimo para tudo o que existe de ruim no universo, aguarde pelas próximas etapas da Maratona Atari, pois vai chegar o dia em que nós, corajosamente, iremos encarar esse célebre símbolo máximo da ruindade videogâmica!


Por outro lado, Warshaw também é o criador do jogo original de Atari (ou seja, que não era uma conversão de arcade) que mais vendeu em todos os tempos, e que sistematicamente é referido nas listas de melhores games do Atari. O nome da obra redentora de Warshaw atende pelo esquisito nome de YAR’S REVENGE.

No jogo, você encarna um YAR – uma criatura alienígena que parece basicamente com uma imensa mosca que cospe bolas de fogo ou algo semelhante. Seu objetivo é destruir o maléfico Qotile, um alien inimigo que mais parece um canhão laser, que está protegido dentro de uma espécie de casulo. Para destruir o casulo, o Yar pode atirar nele ou comer pedaços da estrutura (basta encostar nela, embora atirar seja bem mais eficiente).


Com o inimigo exposto, o Yar pode “invocar” um poderoso disparo de laser (o canhão Zorlon), vindo do outro lado da tela, para destruir o Qotile (é o único jeito de destruí-lo, vale lembrar). Só que a missão não será nada fácil, pois o Yar precisa escapar de um pequeno e vagaroso míssil que fica perseguindo o herói pela tela e precisa, ainda, fugir dos ataques do canhão inimigo, que ocasionalmente dispara uma poderosa rajada de energia na direção do herói “moscão”.

É claro que ver tudo isso que foi descrito nos últimos dois parágrafos sendo reproduzido dentro das limitadíssimas capacidades gráficas do Atari 2600 resulta em algo bastante fora dos padrões. Geralmente, games de atirar em alienígenas possuem uma estrutura bem básica, do tipo “meu canhão, a nave alienígena, os tiros do alienígena e os meus tiros”.

Já em Yar’s Revenge, você precisará de algumas partidas para se acostumar com a “baderna” visual do jogo. Logo de cara, você se sentirá no meio de uma viagem de ácido – ou tendo entrado por engano numa festa rave retrô. Vamos ver: uma mosca gigante alienígena, uma enorme e multicolorida/psicodélica parede de energia (ou campo de força, ou sabe Deus o que), um canhão inimigo, um enorme casulo de algo que pode ser qualquer coisa (mel cristalizado, chocolate?), um disparo inimigo em forma de asterisco, um disparo laser que fica à sua disposição quando o Yar encosta no canhão … deu pra entender, né? O jogador precisa de pelo menos uns dez minutos só pra entender o que está acontecendo e o que é preciso fazer.


No entanto, passada a perplexidade inicial, Yar’s Revenge mostra por que é considerado um dos melhores games do Atari. Sua mecânica mais elaborada do que o tradicional esquema “Space Invaders” da época torna o jogo rapidamente instigante e viciante. A ação na tela é ininterrupta e a atenção do jogador precisa estar voltada para múltiplos elementos, o que contribui para o desafio e para uma experiência de ação “arcade” absolutamente original, o que era bastante raro no Atari, já que os melhores títulos de ação eram geralmente conversões de arcades ou de jogos de outros sistemas. Em questão de minutos, você terá passado da sensação de estranheza perante o jogo para o vício de querer jogar outra partida para superar o seu score anterior.

Em 1999, uma versão de Yar’s Revenge foi lançada para o portátil Game Boy Color. É bastante próxima do original, mas com visual significamente melhor trabalhado. Mais curiosa, no entanto, é o remake lançado em 2011 para Windows e Xbox Live Arcade. Essa nova versão é um “rail shooter” no qual Yar é representado como sendo uma fêmea humanóide com uma armadura mecânica que a permite voar (!). É isso aí, conseguiram deixar o game ainda mais bizarro do que já era!


Curiosamente, Yar’s Revenge é provavelmente o único clássico do Atari 2600 que eu não cheguei a conhecer na minha infância, durante os longos cinco anos (1987-1992) em que tive um clone nacional do Atari (o Supergame, da CCE). É meio estranho, considerando a significativa quantidade de jogos que eu tinha na época (os cartuchos compatíveis com Atari vendidos aqui no Brasil eram bastante acessíveis, ao contrário do que começou a ocorrer depois, a partir do Master System) e o grande acesso que eu tinha a cartuchos de amigos, de colegas de escola e ao acervo da locadora de games que já existia na minha cidade. Só o que posso concluir é que Yar’s Revenge realmente não era um game muito popular por aqui, na contramão do enorme sucesso que fez internacionalmente.

De qualquer forma, embora eu só tenha vindo a conhecê-lo já em plena vida adulta, é impossível não incluir tardiamente esse game esquisito, diferente e cheio de ação na lista dos grandes games que o amado Atari 2600 nos legou.

Opa, estava esquecendo de mais uma coisinha: o nome do game é “A Vingança do Yar”. Do que, afinal de contas, nosso herói estaria se vingando? Segundo o manual ilustrado que acompanhava o cartucho, o nosso protagonista mosca está se vingando da destruição de Razak IV, um dos mundos habitados por sua raça, e que foi exterminado pelos inimigos que o herói combate no jogo. Não é a curiosidade inútil mais legal que você já viu na vida?

Um pensamento sobre “Maratona Atari – YAR’S REVENGE (1981)

  1. Eu tive Yar’s Revenge no Atari. Foi um dos meus primeiros jogos. Comprado em 1984. No manual brasileiro não tinha essa história em quadrinhos. Até agora eu não sabia que vingança era essa.

    ET só podia ter sido o pior jogo de Atari. Apesar de ter um baita programador, ele tinha só um fim-de-semana para fazer e aprontar o jogo. É que ninguém dava nada pelo filme antes do lançamento, mas como ele quebrou os recordes de bilheteria no primeiro dia de exibição (sexta-feira), o jogo (que ninguém tinha pensado em fazer, pois ninguém acreditava no filme) tinha que estar pronto para ser enviado para as lojas na segunda-feira.

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