KARATEKA (1984, Apple II)

Pois é: o genial Steve Jobs nos deixou na semana passada. Muita gente – principalmente entre o pessoal mais jovem – acha que o grande legado do cara foram as desejadas bugigangas que ele inventou na última década, como o Ipod, o Iphone e o Ipad. Ledo engano!

Na verdade, a grande contribuição de Jobs para a revolução do mundo como o conhecemos hoje foi a popularização do microcomputador pessoal. Ele fez isso de duas maneiras: primeiro, criando em 1977 o Apple II, um dos primeiros microcomputadores e o primeiro a experimentar grande sucesso comercial. Segundo, apresentando ao mundo, nos anos 80, o primeiro sistema operacional gráfico (o que depois foi copiado na cara dura pela Microsoft). Jobs intuiu, com toda a razão, que a disseminação dos microcomputadores passaria pela necessária implementação de uma interface mais amigável com o usuário, ao contrário dos sistemas operacionais existentes até então, que eram operados tão somente por comandos de texto na tela.


O Apple II abriu as portas para uma série de grandes e clássicos microcomputadores que vieram depois, como os britânicos ZX Spectrum (1982) e Amstrad CPC (1984), o também americano Commodore 64 (1982), o japonês MSX (1983) e, é claro, o IBM-PC (1981), o padrão que é o avô direto de todos os PCs rodando Windows que nós hoje temos em casa. Ah, e acho que não preciso nem dizer que, se não fosse pelos microcomputadores, nós evidentemente não teríamos consoles de videogame (que nada mais são do que microcomputadores dedicados) em nossos lares.

Jobs foi um dos pioneiros na insana tarefa de convencer as pessoas que elas deveriam ter microcomputadores em suas casas e que estas máquinas poderiam fazer muito para facilitar nossas vidas e torná-las mais legais, o que soava como uma loucura no final dos anos 70.

Naqueles tempos, “computador” era o tipo da coisa associada com grandes empresas, com fábricas e com processamento de dados comerciais. Sugerir que as pessoas deveriam ter computadores em casa e em pequenas atividades profissionais era mais ou menos como sugerir que as pessoas colocassem esteiras de produção ou maquinário pesado dentro de suas residências. Mas o visionário da Apple acreditou na sua visão e … adivinha quem estava certo?


Para homenagear esse gênio sem igual, nós hoje analisaremos, pela primeira vez no Cemetery Games, um jogo do Apple II: Karateka, lançado em 1984.

Peraí, mas como assim “jogo do Apple II”? Karateka não era um game de DOS? Não era um game do Nintendo 8-bits japonês, outros dirão? Não era um jogo do Commodore 64? A resposta é … sim e não! Karateka, de fato, ganhou versões para Amstrad CPC, Atari 7800, Atari-ST, Commodore 64, DOS, Famicom (o jogo não saiu para o NES ocidental), ZX Spectrum e até para o Game Boy clássico (só no Japão). Mas o que interessa é que o jogo foi originalmente desenvolvido e lançado para o Apple II, sendo que todas as outras plataformas receberam conversões do original do micro do Apple. Ou seja, Karateka é uma pérola do Apple II, sim – os outros só imitaram depois!


Além de ter feito um grande sucesso em sua época, Karateka também ganhou fama retroativa depois do lançamento do megaclássico Prince of Persia, em 1989 (outro título que saiu primeiro pro Apple II e que depois ganhou versões para tudo o que era máquina de rodar jogo existente no planeta). Karateka foi desenvolvido por Jordan Mechner (o futuro criador de Prince of Persia) e era uma espécie de “preview” do que viria a ser a tecnologia de animação que faria todo mundo babar no jogo do atlético príncipe das arábias. Apesar de Prince ser indiscutivelmente um game superior e mais sofisticado, a verdade é que Karateka já era um excelente jogo por seus próprios méritos.


A história de Karateka é a seguinte: no alto de um penhasco sinistro, guardada por um exército de lutadores ferozes, se ergue a fortaleza do cruel guerreiro Akuma. Num dia desses, entediado e sem ter muito o que fazer, o vilânico indivíduo resolve animar a sua tarde sequestrando a bela e inocente princesa Mariko e trancafiando ela nas profundezas das escuras masmorras da fortaleza.


O jogador encarna um jovem lutador de artes marciais que não aguenta mais essas injustiças do mundo contemporâneo e que resolve encarar a morte e invadir a fortaleza de Akuma para salvar a pobre donzela (e quem sabe, de quebra, arranjar uma namorada).


Tão logo escala a montanha até a entrada da fortaleza inimiga, o nosso herói já é recebido por uma sequência de lutadores inimigos, todos eles louquinhos para levar o mocinho a óbito de tanta porrada. Para escapar de semelhante destino e cumprir sua missão de resgatar a donzela indefesa, o protagonista conta com dois tipos de socos e dois tipos de chutes. Além disso, o detalhe de alternar entre a “posição de andar” e a “posição de luta” é fundamental. Se você entrar em combate sem estar na posição de luta, o inimigo lhe matará com apenas um único golpe!


Várias das qualidades festejadas em Prince of Persia já apareciam em Karateka: a animação detalhada e impressionante dos personagens (embora mais simples do que as estripulias atléticas que o príncipe da Pérsia iria protagonizar alguns anos depois), a trama contada na forma de cut-scenes dramáticas, a atmosfera, etc.


A jogabilidade de Karateka envelheceu bem, e o jogo continua surpreendentemente divertido e interessante ainda hoje, 27 anos depois de seu lançamento. É preciso um pouco de prática para se acostumar com os comandos um pouco lentos e com a jogabilidade que num primeiro momento parece meio “dura”. Mas, tão logo os movimentos são dominados, o jogador percebe que está diante de um jogo de luta sólido e equilibrado, que consegue ser desafiante sem ser frustrante. É realmente um game impressionante para os padrões de 1984, ainda mais se levarmos em conta o fato de que o hardware do Apple II já contava então com sete anos de idade – e ainda era poderoso o suficiente para surpreender o mundo com um jogo como Karateka, que era o suprassumo para a época.


Ipod, Iphone, Ipad … todas essas coisas podem ser muito legais. Mas o que realmente devemos agradecer a Steve Jobs, para sempre, é pelo seu empenho em nos convencer de que não poderíamos continuar vivendo sem microcomputadores à nossa volta. Muito, muito obrigado por ter percebido isso, Steve! Você, com toda certeza, fez com que as nossas vidas fossem muito mais legais e divertidas.

                      Steve Jobs lançando o revolucionário Macintosh, em 1984.

3 pensamentos sobre “KARATEKA (1984, Apple II)

  1. Ótimo texto, sobre um clássico jogo.

    Sobre o Apple II, meu contato com a máquina foi justamente através de jogos. O pai de um amigo meu tinha um Apple II e muito joguei pérolas como Hard Hat Mack, Speedway Classic, Sneakers, Kung-Fu Master e Arctic Fox.

    O Karateka, só fui jogar muito depois, através de emuladores e, definitivamente, é o embrião do Prince of Persia.

  2. Adoro computadores antigos, se pudesse tinha uma coleção. E o Apple II está sempre no topo da lista de máquinas marcantes. Os gráficos de Karateka são muito bons, pensei que iam ser piores que o de NES O.o Belo texto, deu vontade de jogar – e parabéns pela iniciativa, é semper bem mais fácil encontrar informações sobre consoles antigos que computadores ^^

  3. Karateka, no Apple II tinha três socos e três chutes (e não dois como diz a matéria). Em cima, no meio e em baixo. usava as teclas QAZWSX para dar os golpes.

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