SHINOBI (1991, Game Gear)

No começo dos anos 90, o Game Gear da Sega era uma das coisas mais legais que você podia possuir em termos de videogames. É verdade que os games já se encontravam na sua 4ª geração (representada pelos consoles rivais Mega Drive e Super Nes) e que o Game Gear, em termos de hardware, era equivalente a um console de 3ª geração – portanto, relativamente ultrapassado. Mas os assim chamados “8-bits”, como NES e Master System, ainda desfrutavam nessa época de grande popularidade e continuavam fortes no gosto dos jogadores (a 3ª geração só morreu pra valer entre 1993 e 1994).

Imagine, então, poder desfrutar de um aparelho equivalente a um Master System, porém PORTÁTIL, com tela colorida, iluminação própria (coisa que nem o primeiro modelo do Game Boy Advance, lançado em 2001, teve!), entradas para fone de ouvido e vários acessórios legais. Naqueles tempos, era um verdadeiro sonho! Vale lembrar: naqueles tempos, acessórios eletrônicos portáteis ainda eram uma raridade. As pessoas não tinham celulares, nem players minúsculos de mp3 (um walkman tocando fitas K7 já era um luxo). A ideia, portanto, de jogar algo da qualidade de um Master System num aparelho inteiramente portátil era realmente de babar!

No entanto, nem tudo eram flores no Game Gear. Deixando de lado outros aspectos mais técnicos (como a forma abominável que o portátil devorava um conjunto de pilhas em questão de poucas horas, tornando o adaptador para tomada virtualmente indispensável), o “calcanhar de Aquiles” do console era a escassez de bons títulos originais. A imensa maioria dos títulos de Game Gear eram jogos diretamente convertidos do Master System (geralmente com qualidade muita próxima ao original, e eventualmente até superando as versões lançadas para o irmão maior). Quando a Sega lançou o adaptador Master Gear Converter (para rodar cartuchos do Master diretamente no G.G), parecia que o portátil da Sega tinha oficialmente se transformado numa versão portátil do Master System, e não propriamente num console com identidade própria e vida independente.

Mas, é claro, haviam exceções. Alguns poucos games exclusivos do Game Gear se transformaram em ícones da plataforma. Games que ajudaram a dar uma identidade para a biblioteca de games do portátil da Sega. Alguns destes games são bons, outros nem tanto, mas hoje nós vamos falar de um dos mais memoráveis: o excelente SHINOBI, lançado pela Sega em 1991.


O título, é verdade, não sugere muita originalidade. Afinal de contas, o jogo tem o mesmíssimo nome do primeiro jogo da Sega estrelado pelo ninja Joe Musashi – o clássico Shinobi, lançado em 1987 nos arcades e depois adaptado (com grande sucesso) para o Master System. Mas a única semelhança entre o jogo do Game Gear e o pioneiro título da Sega estava no título. O Shinobi do Game Gear era um jogo inédito e exclusivo do portátil. E o melhor de tudo: era bom, muito bom.


A jogabilidade deste Shinobi do Game Gear reproduzia, de certa forma, o estilo do célebre The Revenge of Shinobi, lançado em 1989 para o Mega Drive. Além da jogabilidade funcional, o game se destacava pelos ótimos gráficos, pela boa variedade de cenários (cada fase possuía uma ambientação própria e bem característica) e também pela excelente trilha sonora, assinada por ninguém menos do que Yuzo Koshiro, um dos mais festejados compositores de trilhas de games do final dos 80s e começo dos 90s. É claro que o hardware limitado do Game Gear não permitia uma execução tão caprichada e bem executada quanto os trabalhos de Koshiro em títulos do Mega Drive, mas o resultado final é extremamente positivo e bastante empolgante.


A história do jogo é a seguinte: nosso conhecido amigo ninja Joe Musashi estava no Vale dos Ninja, vivendo tranquilo sua vida de ninja, rodeado por seus amigos ninja, quando então rumores de destruição e terror nas áreas suburbanas próximas chegam até os ouvidos da coletividade ninja. O mestre da escola ninja, com a rapidez que é característica dos ninja, resolve enviar Musashi e outros quatro ninja para destruírem a organização criminosa responsável pelo caos. É, aparentemente essa áres urbanas aí são desprovidas de polícia e exército, e os cidadãos precisam contar com a boa vontade de cinco ninja coloridos para que a criminalidade seja enfrentada. Mais ou menos como a população de Nova York, que no começo dos anos 90 confiava a segurança inteira da cidade a um grupo de quatro tartarugas adolescentes humanóides, lembra? Bom, era uma época estranha, na qual os videogames eram mais simples e as pessoas eram mais ingênuas. Ah, que saudades!


Tudo muito bom, tudo muito bem, mas o problema é que todos os amigos ninja de Musashi foram capturados no meio dessa história toda. E pior: os criminosos promoveram algum tipo de “lavagem cerebral” nos ninja e transformaram todos os quatro em escravos da gangue, prontos para acabar com a raça de Musashi na primeira oportunidade. Assim, o valente ninja vermelho Joe Musashi tem diante de si uma missão complicada: passar por quatro fases diferentes, derrotar seus quatro amigos, libertá-los do controle dos criminosos e então, depois de reunir todo o bando, invadir a base criminosa em Neo City e destruir as instalações criminosas de uma vez por todas.


A história dos “vários ninja de diferentes cores” ajuda a dar mais variedade à jogabilidade do Shinobi do Game Gear, na medida em que cada ninja possui uma habilidade diferente (caminhar sob a água, atirar bombas, etc). À medida em que o jogador vai agregando diferentes ninja (que podem ser trocados a qualquer momento durante o jogo), fases que pareciam excessivamente desafiantes vão se tornando mais simples de serem ultrapassadas.


Um game inédito da série, com gráficos caprichados, fases legais, ótima trilha sonora, jogabilidade sólida … vendo assim, até parece que o Shinobi do Game Gear era simplesmente perfeito, não é mesmo? É, pois é. Mas não era. O jogo padecia – e ainda padece – de dois defeitos bastante desgraçados. Vamos a eles.


Primeiro: o Shinobi do G.G era difícil. MUITO difícil. O popular site Hardcore Gamer 101 definiu o jogo como tendo uma “dificuldade de arrebentar a tela” do videogame. Pessoalmente, acho que a escolha de palavras não poderia ter sido mais apropriada. Eu mesmo tinha um amigo (um colega meu da escola) que havia quebrado a tela do Game Gear com um soco, de tanta raiva, jogando este game. Pois é, o jogo é irritante assim mesmo. Eu vim a conhecer o Shinobi do G.G em 1994, sendo que quem me emprestou o cartucho foi esse mesmo amigo que socou seu Game Gear. Adorava o joguinho, mas confesso que também senti, várias vezes, aquela vontade de atirar o videogame na parede.


Segundo problema do Shinobi do G.G: a última fase (Neo City). Esse problema se confunde, até certo ponto, com o primeiro. Isso porque a dificuldade do game é bastante acentuada ao longo de todas as fases, mas tudo isso ainda dentro de limites aceitáveis de frustração e desafio. A coisa realmente se torna injusta e miseravelmente irritante na última fase, que parece somar o insulto à injúria: não apenas a dificuldade se torna insanamente difícil, de um segundo para o outro, como também esta última fase é, de longe, a mais mal acabada, precária, feia, aborrecida, desinteressante e desestimulante fase do jogo.


Sinceramente, até hoje não entendi o que aconteceu aqui. Até parece que o tempo para o desenvolvimento do game terminou e que os programadores fizeram a última fase “de qualquer jeito”, compensando a precariedade dos cenários com uma dose cavalar, exagerada e irracional de dificuldade tediosa. É triste de dizer, mas a última fase do game, em parte, arruína a experiência, transformando a diversão em frustração e o desafio em irritabilidade.


De qualquer forma, no geral, o Shinobi do Game Gear é um título exclusivo da melhor qualidade, bastante divertido (principalmente para quem nunca chegou até a última fase!) e desafiante. Há uma certa dose de irregularidade no jogo considerado como um todo, mas não o suficiente para tirar do título o seu posto de um dos melhores games exclusivos lançados para o portátil da Sega.


O melhor de tudo é que, no ano seguinte, o game ganharia uma continuação que, no geral, era superior a este primeiro título. Mas isso já é uma história para um outro review …

Um ninja, em cima de um avião, lutando contra as investidas de um helicóptero inimigo e de atiradores de bombas que escalam a lateral do avião. Exagero pouco é bobagem …

2 pensamentos sobre “SHINOBI (1991, Game Gear)

  1. Games de ninjas sempre foram casca grossa na minha opinião, vide a série Ninja Gaiden! Só consegui zerar o do Master com muita paciência e sorte também. E esse Shinobi não fica atrás, muito boa sua análise.
    Abraço!

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