O PRIMEIRO CONSOLE A GENTE NUNCA ESQUECE … O SUPERGAME DA CCE!


O André Breder começou com essa brincadeira lá no Gagá Games, e agora é hora de eu confessar em público a extensão da minha velhice, falando do meu primeiro videogame. Peço especial cautela para os mais jovens, que poderão sofrer vertigens com a prolongada regressão temporal que agora faremos. Depois não digam que eu não avisei, hein?

O ano é 1987. O presidente do Brasil é José Sarney, o presidente dos EUA é Ronald Reagan e o mundo vive os últimos anos da Guerra Fria entre os americanos e a União Soviética. O Brasil começa uma progressiva transição para a democracia. A Super-Máquina, Esquadrão Classe-A e Miami Vice são as séries do momento no Brasil. Michael Jackson é, de longe, o artista mais popular do universo. O U2 lança o seu seminal álbum The Joshua Tree.

Um aparelho de telefone com fio e um televisor colorido com tela de 14 polegadas e controle remoto são algumas das coisas mais sofisticadas que você pode ter na sua sala. Em 13 de setembro (um dia antes do meu aniversário), ocorreu o acidente com Césio-137 em Goiânia, até hoje considerado o pior acidente radioativo em área urbana de todos os tempos.

Basicamente, esse era o Brasil e o mundo. Não que eu estivesse particularmente muito interessado na maior parte dessas coisas (bem, eu gostava do Michael Jackson e de Super-Máquina …). Eu estava entre os cinco e os seis anos de idade, entrando na escola no pré-primário. Minha vida era brincar. Mas faltava uma coisa, algo que já capturava os corações e mentes das crianças naquela época: um videogame! E, naquele ano, eu viria a ganhar o meu primeiro console, o SUPERGAME, um clone nacional do Atari 2600, fabricado pela CCE.


“Atari”? Ora, mas em 1987 já existiam o Nintendo 8-bits e o Master System, correto? Sim, mas aqui no Brasil ainda eram poucos os privilegiados que já estavam ingressando na ainda inovadora terceira geração de consoles. Embora o Atari já contasse com 10 anos de vida no mercado internacional, aqui no Brasil ele ainda gozava de imensa popularidade naqueles tempos, o que podia ser verificado pela grande quantidade de clones nacionais que o console tinha, fabricados por empresas como CCE, Milmar, Dynacom e outras.


O Supergame já causava suspiros antes de sair da caixa. A embalagem, extremamente caprichada, mostrava o console como se fosse o computador de bordo de uma espaçonave, com naves inimigas aparecendo no espaço sideral, vistas pelo painel da nave. A mensagem era clara: “atenção, fedelho, o poder está agora em suas mãos. Prepare-se para trocar tiros – muitos tiros! – com naves alienígenas”.

Se bem me lembro, o console vinha acompanhado de três cartuchos. Um deles era Command Raid (do qual nunca gostei muito), o outro eu não lembro qual era e o último era PAC-MAN, o game definitivo da minha infância. É, eu sei: o Pac-Man do Atari 2600 é um dos jogos mais criticados e avacalhados de todos os tempos, e hoje faz parte da cultura retrogamer crucificar o jogo. Mas acreditem nessa testemunha ocular da história que vos fala: na época, todo mundo por aqui AMAVA esse jogo. Não é como se as crianças fossem familiarizadas com o Pac-Man original do arcade e estivessem em condições de fazer juízos comparativos críticos. Todo mundo adorava o Pac-Man e a versão mais popular do jogo era a do Atari, e era só isso o que importava.


O Supergame tinha um belo visual “black”, e eu sempre achei ele mais bonito e elegante do que o Atari 2600 original da Atari. Os joysticks também eram em preto, com o enorme (e único) botão na cor amarela. Os joysticks eram bonitos, mas de uma fragilidade comovente, e quebravam com irritante facilidade. Felizmente, existiam no mercado alternativas na forma de joysticks “pad”, menos propensos a quebrar do que os joysticks “de torre” como aqueles que acompanhavam consoles.

O game-símbolo dessa época dos joysticks que quebravam com frequência é o célebre jogo de esportes Decathlon (que, graças a Deus, eu nunca joguei naqueles tempos). Com suas provas de corrida, o jogo era um campeão absoluto em causar o arrebentamento de joysticks.


O grande barato de ter um Atari (ou um clone nacional) era o preço reduzido dos cartuchos, que eram muito acessíveis. Haviam cartuchos de todos os tipos, lançados por empresas das mais diversas. Os da CCE eram os que apresentavam os desenhos mais legais. Os da Milmar, por sua vez, se destacavam por trazer quatro jogos num único cartucho, usando um sistema de “chaves” compostas para seleção do jogo desejado.


Era uma festa: todo mundo que tinha um console compatível com Atari em casa tinha também uma caixa de sapatos (ou algo semelhante) repleta de cartuchos. Era algo muito, mas MUITO diferente do que se viu pouco tempo depois, na época do Master System e do Mega Drive, quando o custo de três ou quatro cartuchos atingia o valor do próprio console! No entanto, a razão desses “preços baratos” da cena nacional do Atari é hoje conhecida por todos: era uma pirataria institucionalizada. Por trás do aparente profissionalismo das empresas envolvidas, a verdade é que a maior parte desses cartuchos de jogos eram lançados por aqui sem pagamento de royalties para as empresas estrangeiras.

Até onde eu sei, a CCE lançou dois modelos diferentes do Supergame “grande”, que é o que eu tinha (não lembro qual modelo era o meu). Um terceiro modelo (de tamanho bem reduzido e joysticks diferenciados que não podiam ser removidos do console) chegou a ser lançado, e também era bem popular.

Além de ser meu primeiro videogame, o Supergame foi o console definitivo da minha infância. Eu o tive por longos cinco anos, de 1987 a 1992. Nos meus últimos dias com ele, eu tinha passado nada menos do que metade do meu tempo total de vida convivendo com Space Invaders, Pac-Man, Frogger, Pitfall, Megamania, Enduro, Mr. Postman, Keystone Kapers, Donkey Kong e tantos outros.

Os primeiros anos foram de absoluto encantamento e diversão, mas no final desse período eu preciso confessar que já estava completamente de saco cheio do Atari. Nada mais natural: em 1992, os videogames de terceira geração já estavam extremamente popularizados, e as atenções dos fãs de videogames estavam voltadas para os maravilhosos Mega Drive e Super Nes, as máquinas que estabeleceram a então toda-poderosa quarta geração de videogames. Por mais que o meu querido “Atari-compatível” tivesse me entretido em anos anteriores, naquela altura do campeonato já não dava mais pra se divertir com aqueles jogos excessivamente precários e simplórios. A magia havia se esgotado.

Felizmente, naquele ano, minha necessidade por novidades foi atendida com a chegada de um fantástico computador MSX. Pouco depois, vendi o meu velho Supergame de guerra (coisa da qual me arrependo amargamente até hoje). Anos mais tarde, já adulto e na condição de retrogamer, a minha paixão pelo pioneiro e fantástico Atari 2600 voltou com tudo – e, dessa vez, para nunca mais ir embora.

Juro: só de olhar, eu consigo lembrar do cheiro do chip desses cartuchos, quando eles esquentavam depois de algum tempo de jogo!

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Confira os outros blogs particantes do meme “O primeiro console a gente nunca esquece:

1/2 ORC: http://meioorc.com/artigos/o-primeiro-console-a-gente-nunca-esquece-mega-drive-e-super-nintendo/

1/2 ORC (2ª PARTE): http://meioorc.com/artigos/games/o-primeiro-console-snes-master-system/

ARQUIVOS DO WOO: http://arquivosdowoo.blogspot.com/2011/04/meme-o-primeiro-console-gente-nunca.html

BLUE ROSE GARDEN: http://blue-rose-garden.blogspot.com/2011/04/o-primeiro-console-gente-nunca-esquece.html

COSMIC EFFECT: http://cosmiceffect.com.br/2011/04/29/o-primeiro-console-a-gente-nunca-esquece-atari-2600/

GAGÁ GAMES: http://www.gagagames.com.br/?p=26458

GAME GENIUS: http://xgamegeniusx.blogspot.com/2011/04/o-primeiro-console-gente-nunca-esquece.html  /   http://xgamegeniusx.blogspot.com/2011/05/o-primeiro-console-gente-nunca-esquece.html

GLStoque: http://www.glstoque.com.br/2011/04/o-primeiro-console-gente-nunca-esquece.html

JOGANDO COM OS AMIGOS: http://jogandocomosamigos.blogspot.com/2011/04/o-primeiro-console-gente-nunca-esquece.html

MEMÓRIAS DE UM LOBO DE MADEIRA: http://memoriasdeumlobodemadeira.blogspot.com/2011/04/o-primeiro-console-gente-nunca-esquece.html

NINTENDOBLAST: http://www.nintendoblast.com.br/2011/04/o-primeiro-console-gente-nunca-esquece.html

QG MASTER: http://qgmaster.blogspot.com/2011/04/o-primeiro-console-gente-nunca-esquece.html

RETRONEWSFOREVER (NESBITT): http://retronewsforever.blogspot.com/2011/04/o-primeiro-console-gente-nunca-esquece.html

RETRONEWSFOREVER (TANDRILION): http://retronewsforever.blogspot.com/2011/04/o-primeiro-console-gente-nunca.html

RETROPLAYERS: http://www.retroplayers.com.br/?p=9930

ROBSON’S BLOG: http://robsonfranca.eti.br/node/39

VÃO JOGAR: http://vaojogar.com.br/escrito/o-primeiro-console-a-gente-nunca-esquece-snes

VIDEOGAME.ETC.BR: http://videogame.etc.br/?p=1615

26 pensamentos sobre “O PRIMEIRO CONSOLE A GENTE NUNCA ESQUECE … O SUPERGAME DA CCE!

  1. Realmente em 1987 não tinha muitos NES por aqui não, era bem comum ver nas lojas fitas e fitas de Atari… Excelente participação, não esquece de acrescentar a lista dos blogs participantes. Dá um Ctrl+C na lista lá do JCOAS, que tá em ordem alfabética… Aquele Abraço… Vamos ajudar a divulgar…

    Obs: Não deixe de comentar no post dos outros participantes, deixe sua opinião, sua visita, vamos fortalecer e ampliar essa corrente…

  2. Muito bom o post =D e parabéns pelo blog: está nos meus favoritos e sempre visito, mas não sou de postar muito…XD

    Esse também foi meu primeiro videogame, ganhei um do meu primo em 1990(ele tinha comprado um Master): nos primeiros meses pirei com os jogos dele(River Raid, Enduro, Hero, Megamania, etc), mas depois de eu conhecer o Master System, Mega Drive e Nes em uma locadora de uma cidade vizinha a minha ele perdeu toda a magia pra mim… não tinha como comparar os jogos…..e quando saiu Street nos arcades então…..Mas me divertiu muito e é isso o que importa….=D

    • Pois é, Hely. Isso é natural com videogames. Com o passar dos anos, ficar limitado a um único console é algo que começa a incomodar a gente, principalmente quando se é criança. Esse é o espírito da cena retrogamer: acompanhar a natural evolução dos jogos sem deixar que os bons títulos de outras épocas caiam no esquecimento. Abraço!

  3. Pingback: O primeiro console a gente nunca esquece parte 2 – 1/2 SNES + 1/2 Master System | 1/2 Orc

  4. Pingback: O primeiro console a gente nunca esquece: Mega Drive e Super Nintendo | 1/2 Orc

  5. Uma lágrima saudosista escorreu aqui.

    O Supergame CCE foi meu primeiro video-game também, o cartucho que acompanhava era o Pac-Man.

    Só fui saber dessas críticas ao Pac-Man muito tempo depois, principalmente quando tive conhecimento da versão original (ou mesmo outras versões, como do MSX). Porque nos tempos do Atari, ou melhor, do Supergame CCE, Pac-Man me proporcionou muitas horas de entretenimento.

    Meu Supergame foi doado a um primo (mas pretendo recuperá-lo, se ainda existir).

    • É isso aí, Cidraman! Eu venho insistindo nesse ponto (vide meu review anterior do Pac-Man do Atari 2600 aqui no Cemetery Games): essa história de que “o Pac-Man do Atari era ruim” era coisa dos americanos, que compararam o jogo com o original do arcade (que lá eles tinham em cada esquina) e com as versões para microcomputadores (que já eram populares por lá). Nós, brasileiros dos anos 80, AMÁVAMOS o Pac-Man do Atari. Antes do advento da cena retrogamer, eu jamais havia ouvido uma criança ou adulto aqui do país falar mal do jogo. Pelo contrário: era a unanimidade mais absoluta que existia, TODO MUNDO gostava muito. É importante fazer essa contextualização para evitar que uma leitura retrogamer apressada acabe “reescrevendo a história”, crucificando um jogo que foi símbolo de uma época aqui no país. Abraço!

  6. Pingback: Gagá Games » O primeiro console a gente nunca esquece: Dactar

  7. Caraca, eu nem lembrava que o Supergame existia😄 Pode crer cara, vendo as fotos eu lembrei que tinha até uns modelos mais exóticos kkkkk

    Sneak’n Peak, famoso esconde esconde, nossa, uma vez um amigo me achava todas, descobri que o fdp tava com um espelho escondido… ele abaixava a cabeça, colocava a almofada em cima, mas usava o espelho pra roubar… FDP!!!!

  8. Pingback: O Primeiro Console A Gente Nunca Esquece: Atari 2600* « Cosmic Effect – Videogames Ontem e Hoje

    • Eu babava no jogo por causa do desenho no cartucho da CCE. Na minha imaginação, parecia um jogo de terror, pois os dois garotos pareciam estar numa casa mal-assombrada à noite. Quando finalmente ganhei o jogo, ele me decepcionou um bocado, principalmente porque eu não tinha com quem jogar e Sneak ‘n Peak no modo 1 player é um tédio completo.

  9. Pegador de Esconder era o melhor!
    Arrasô!

    Confesso nunca ter ouvido falar desse Super Game. E me parece muito mais bizarro que todos os Ataris da história. Quantas chaves tem aquilo?
    Inédito! Adorei!

  10. Eu lembro desse modelo, mas no final pra mim era tudo Atari (sem o 2600). E cara, eu lembro exatamente desse Pac-Man da foto… e também lembro do cheiro de cartuchos quando ficavam quentes, he he he.

    • Hehehe, você tem toda a razão. Na época, todo clone de Atari 2600 era chamado de “Atari”. Nem quem tinha o console original da própria Atari falava no número “2600”. Raramente alguém dizia “tenho um Dactar”, “tenho um Supergame”, tenho um “Dynavision” … era tudo “tenho um Atari”. Eu acho que já era quase adolescente quando soube que existiam outros modelos do Atari (5200 e 7800) além do clássico. O fato de estes dois modelos posteriores terem sido fracassos nos EUA e virtualmente desconhecidos no Brasil também não ajudou. E quanto a esse cartucho do Pac-Man da CCE, só me resta suspirar! 🙂

  11. Pingback: Gagá Games » O primeiro console a gente nunca esquece: Odyssey

  12. Eu também sou um dos poucos que ama o Pac Man do Atari 2600. Sei que é bem diferente dos arcades e talz, mas o jogo ainda é muito bom e acho uma injustiça o pessoal malhar tanto o jogo. Pra mim ele foi um dos melhores e um dos games que mais me divertiram na época em que eu tive um Atari.

    Excelente post, abraços!

  13. Pingback: MEME: O primeiro console a gente nunca esquece – Super Charger (o primo pobre do Famicom)) | Relíquias do MAME

  14. Boa Caveira, ótimo texto!
    Cara, como outros já comentaram Sneak Peak era muito legal, eu tinha que sair do quarto pra não ver onde meu primo ia se esconder e vice-versa. Hoje vejo como era precário, hahah, mas eu me divertia muito. Pô, eu amava Frostbite, até comentei em outros blogs, ninguém fala desse jogo eu me amarrava nele.
    Abração!

    • Hehehe, pois é, Leo: não duvido que Sneak ‘n Peek era legal quando jogado com alguém. Mas, como eu sou filho único, pra mim a experiência era solitária e absolutamente retardada hehehe. Você se sentia literalmente como um doido, brincando sozinho de esconde-esconde hehe. Mas o que mais me frustrou é que eu sou um fã de coisas de terror desde criança, e aquela ilustração da CCE sempre me fazia pensar que o jogo tinha uma temática de mistério/horror. Eu fiquei muito decepcionado ao constatar que aquele casarão deserto em meio à luz do luar não era assombrado por nenhum fantasma, vampiro, serial killer, morto-vivo ou monstro genérico. Gosto da ambientação de Sneak ‘n Peek, mas se dependesse de mim o esconde-esconde daria lugar para uma fuga desenfreada de fantasmas pelo casarão hehehe. Abraço! 🙂

  15. Boa noite amigo!

    Nossa, regressei ao tempo junto com você ao ler este relato. Também tive um SUPER GAME ATARI VG2800 nos anos de 1990 a 1996. Sou 04 anos mais novo que você, e hoje mais velho, me fez recordar o quanto este console fez parte de muitas gerações. Cara, to sem palavras aqui, muito bom mesmo relembrar uma parte de minha infância com este GAMER que para nós era de outro mundo. Rsrrsrs. Hoje ainda continuo sendo amante dos GAMERS:) Fique na paz amigo. Abraços!

  16. Pingback: Crossover Digital #13 – PCs vs. Consoles - Crossover Digital

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