MEMÓRIAS RETROGAMERS DE VERÃO: REVISTAS DE VIDEOGAME NA PRAIA – Parte I

Estamos no verão de 1992, em algum ponto de janeiro ou fevereiro. Estou em Torres, no litoral norte do RS, e peço para o meu pai me comprar uma revista de videogame que me chamou a atenção. Que revista era? Nada menos do que o número 1 da clássica AÇÃO GAMES, uma das primeiras revistas de games do mercado editorial brasileiro.


Antes de mais nada, cabem dois rápidos esclarecimentos. Primeiro: apesar de eu ter comprado a revista no verão de 1992, ela na verdade tinha sido lançada meio ano antes, em maio de 1991. Parece uma coisa estranha para os padrões atuais, mas olhando em retrospecto fica fácil de entender. Naquela época, era relativamente comum que algumas revistas demorassem consideravelmente para chegar aqui no sul do país, na comparação com o eixo São Paulo/Rio de Janeiro. Ou isso, ou simplesmente era um exemplar que tinha ficado “esquecido” num canto da banca …

O segundo esclarecimento é que, apesar daquele ser o número 1 da AÇÃO GAMES, não se tratava propriamente da primeira edição da revista. Explico: antes de ela se tornar mensal e se chamar AÇÃO GAMES, a revista era um encarte especial periódico da revista A SEMANA EM AÇÃO (e se chamava A SEMANA EM AÇÃO – GAMES) e já tinha tido duas edições anteriores, em dezembro de 1990 e março de 1991, respectivamente. De qualquer forma, a partir daquele número, a revista se tornava mensal e “independente”.

Voltando para a casa da praia, passei boa parte do veraneio babando naquela revista (lembrem-se: naquela época o meu videogame ainda era um Atari!). A capa, por si só, já era de infartar, noticiando o lançamento do “16 bits da Nintendo“, de “Mickey Mouse, o astro da Disney numa superprodução da Sega” (falando de Castle of Illusion do Mega Drive) e “superestratégias para você detonar” os games Tartarugas Ninja 2 (NES), Eswat (Master System) e The Revenge of Shinobi (Mega Drive). Para ser melhor, só se aqueles videogames se materializassem magicamente na minha frente …


A seção de notícias da revista apresentava o lançamento do mais novo videogame da Dynacom, o Dynavision 3. Coincidentemente, naquele mesmo ano, meu melhor amigo daqueles tempos viria a ganhar um console desses, e nos anos seguintes nos esbaldamos jogando Super Contra, Batman – Return of the Joker, Battletoads, Kung Fu Master, Tartarugas Ninja III, Yo!Noid e outros!


Algumas páginas depois, uma promoção sorteava um Phantom System, da Gradiente, provavelmente o mais popular clone nacional do NES naquela época. “Esse Phantom pode ser seu!“, dizia o anúncio. Pena que, quando comprei a revista, o prazo para participação na promoção já tinha acabado há um bom tempo!


As páginas seguintes exibiam uma infartante reportagem sobre o Super Famicom, “o videogame que provocou uma corrida às lojas do Japão” e que “promete ser sucesso no mundo inteiro” (puxa, e eles não poderiam imaginar o quanto estavam certos sobre isso, não é mesmo?). Ao longo da reportagem, várias fotos e pequenas análises sobre alguns dos primeiros games do recém-lançado console da Nintendo: Super Mario World, Actraiser, Final Fight e Pilotwings. Era difícil imaginar que, menos de um ano depois de eu estar lendo aquelas páginas, o Super Nes já estaria tomando o mundo ocidental de assalto, hipnotizando todos os fãs de games do mundo na esteira do megasucesso de sua versão do Street Fighter II, sucesso absoluto dos arcades.


Ah, e o detonado de Tartarugas Ninja II do NES, um clássico! Eu acompanhava a matéria passo a passo, vendo cada foto de cada fase e “entrando” no game como se eu mesmo estivesse jogando. Eu era um fã das Tartarugas Ninja naquele tempo, e só faltava babar vendo aquilo. Era simplesmente o game mais legal do mundo, sem espaço para a concorrência.

A revista também apresentava um detonado do Eswat do Master System. Curiosamente, uns três anos depois, eu terminei o Eswat do Master System no verão, naquela mesma casa da praia, jogando no meu Game Gear com o adaptador Master Gear Converter (aquela maravilha que já foi analisada aqui no Cemetery Games, lembram?). É bem provável que eu estivesse com essa revista (então já “velha”) em mãos, me orientando sobre como vencer cada um dos chefões. E lá pelo fim da revista, havia uma página e meia dedicada ao MSX, o computador que eu coincidentemente viria a ganhar naquele mesmo ano.

Só quem era fã de games naquela época é capaz de entender o apelo absurdo que as revistas de videogame exerciam sobre os fedelhos naqueles tempos. As revistas de games eram a única fonte de informações que um gamer poderia ter. Era o único jeito de conhecer os jogos sem jogá-los, saber o que estava sendo lançado, saber quais eram novidades no exterior, ver fotos de games, ter acesso a dicas e estratégias, etc. Não havia internet, nem programas de games na TV, nem absolutamente nada além de locadores de videogame e revistas de videogame. Fora disso, só havia você, o console que você tinha em casa e os jogos que comprava nas lojas.

A falta de informação era total, e a ignorância dos gamers também era completa – qualquer lorota braba ou lenda urbana sem fundamento era tida como “verdade absoluta” naqueles tempos. Era normal ver gente dizendo que o Atari era “um videogame de 4-bits”, ou que “o Pitfall do Atari tinha um final” e por aí vai. Era comum ver leitores escrevendo para as revistas para perguntar “para qual videogame tinha sido lançado tal jogo”, ou se era possível rodar jogos da Sega neste ou naquele clone nacional de NES, ou como era possível conseguir tal jogo no lugar onde o leitor morava. Enfim, as revistas eram simplesmente o máximo, e esse primeiro número da Ação Games, apresentando Castle of Illusion, Tartarugas Ninja e o recém-lançado Super Famicom, era de causar palpitações!

Em tempo: você pode conseguir uma cópia em .PDF desta histórica primeira edição da Ação Games no genial site Data Cassetehttp://www.datacassete.com.br

8 pensamentos sobre “MEMÓRIAS RETROGAMERS DE VERÃO: REVISTAS DE VIDEOGAME NA PRAIA – Parte I

  1. Olha, eu tenho 3 cópias da primeira edição da Ação Games. Isso porque estava participando de um campeonato da Tec Toy / Ação Games aqui em Salvador bem nessa época, então as revistas ficavam dando sopa pra quem estava jogando e concorrendo. Eu acabei até ganhando na categoria “Master System Juvenil” hahahah, a final foi emocionante, E-Swat🙂

    Em 2050 eu vendo minha coleção de Ação Games e fico rico😀😀

    Abraço, ótimo post!

    • Hehehe, que legal, Eric! Pabéns pelo glorioso título, são coisas que a gente nunca mais esquece. Eu até hoje lembro da minha empolgação quando a Supergame me enviou minha carteirinha de sócio do Clube do Chefe, foi o máximo hehehe.

      A Ação Games, embora amadora para os padrões atuais, foi um marco no mercado de games brasileiro. A revista é lendária e admirável, pois durou de 1991 até 2001 – ou seja, do surgimento do Super Nes ao surgimento do Playstation 2. Não é pouca coisa. Na época, era só aparecer com uma revista dessas na sala de aula que você se tornava o centro das atenções hehehe.

  2. muito massa, eu tb tenho uns exemplares bem antigos de revistas, tinhamais, uma pena ter perdido alguns
    tenho uma revista nintendo de número 10, uma ação games bem antiga. Me lembro que era febre comprar estas revistas.

  3. Baita revista! Só pra confirmar: a primeira Ação Games saiu aqui no sul em maio de 91 mesmo. Com certeza pois comprei a minha em uma banca em Viamão.
    Eu acho que estas revistas, quando sobravam, voltavam para o encalhe e eram redistribuídas meses depois. Era comum isso na época.
    Abraço e parabéns pela matéria.

    • Pois é, no litoral gaúcho (ainda mais naquela época!) é comum as bancas venderem revistas que já foram lançadas há algum tempo. Mas essas revistas eram tão embasbacantes que nem fazia diferença mesmo hehehe. Não sei se ali foi a primeira vez que li sobre o Super Nes (ainda “Super Famicom”, pois só tinha sido lançado no Japão), mas provavelmente foi. Abraço!

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  5. Cara, muito legal o texto. Parabéns. Eu era adolescente em 1992 e me lembro que uma revista de videogame era tudo o que tínhamos para buscar informações sobre jogos, consoles e sobre o que estava ocorrendo no mundo dos games. Ao ler o texto, lembrei dos meus amigos de infância/adolescência. Lembrei dos tempos de colégio, quando morava em SP. Lembrei de músicas da época (Guns Roses era o máximo). E cheguei a uma conclusão: o ato de jogar video game era muito mais puro, inocente, rudimentar e prazeroso do que é hoje, mesmo com video games mais modernos que tem super gráficos, sons de alta qualidade e até tecnologia blue ray. Sinto pena da atual molecada que não sabe nada sobre as origens dos games, que debocham e menosprezam jogos e consoles antigos, como se não tivessem valor. Eles nunca vão conseguir entender o contexto dentro do qual os games estavam inseridos. Mas o que eu mais sinto tristeza por eles é pelo fato de que nunca saberão o quão puro e prazeroso era o ato de jogar videogame. Fiquem com Deus.

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