PAC-MAN (1980, Arcade/ 1982, Atari 2600)


Finalmente chegou o dia! Aproveitando o aniversário de 30 anos deste ícone dos games, irei finalmente falar aqui no Cemetery Games sobre o game fundamental da minha infância e o meu ídolo supremo dos videogames. O pioneiro, o único, o inimitável: PAC-MAN!

TRINTA anos? É, macacada, o tempo voa! Criado pelo honorável senhor Toru Iwatani, da Namco, Pac-Man surgiu nos arcades no Japão em 22 de maio de 1980. O resto é história: o jogo tornou-se um dos maiores sucessos da “Era de Ouro dos Arcades” e virou sinônimo de videogame nos anos 80. O personagem protagonizou trocentos outros games ao longo das décadas seguintes, e deu origem até a um desenho animado.

Mas se você achou que eu iria falar aqui sobre o Pac-Man original dos arcades, se enganou. Não o farei por duas razões. Primeiro, porque Pac-Man é um ícone estabelecido da cultura pop mundial e se alguém AINDA não sabe quem é o personagem e nem sobre o que o game se trata, então essa pessoa já está irremediavelmente perdida para além de qualquer possibilidade de salvação. Segundo, porque eu sequer era nascido quando o game estourou nos arcades. É verdade que o jogo fez sucesso nos fliperamas ao longo de toda a década de 80, mas naqueles tempos a maior parte dos fliperamas não ficava em shoppings e eram frequentados basicamente por adolescentes e adultos jovens. Não eram lugares para crianças de oito ou nove anos de idade. Em outras palavras: quando eu comecei a frequentar fliperamas com habitualidade, Pac-Man já era uma velharia até difícil de encontrar. Por isso, vou tratar do game que joguei à exaustão na infância: o Pac-Man do Atari 2600 (conhecido na época como Atari VCS, de Video Computer System).

Como já seria de se esperar, o sucesso de Pac-Man nos arcades levou o game a ser convertido para tudo o que é máquina de rodar jogo que você possa imaginar. Só não lançaram versões de Pac-Man para ábacos, mimeógrafos, rádio-relógios e fornos de microondas!

A mais famosa dessas versões, naturalmente, foi aquela lançada para o videogame mais popular e comercialmente bem sucedido daquela época, o Atari 2600. Com a respeitabilíssima marca de 7 milhões de cópias vendidas, o game se tornou (de longe) o maior sucesso comercial da história do console. O “detalhe” é que essa versão de Pac-Man para o Atari entrou para a história como um dos piores games de todos os tempos, foi extremamente criticada na época e hoje é considerada até como uma das causas do “crash” do mercado de videogames em 1983/1984.

Será que isso é verdade? Pac-Man do Atari é mesmo ruim assim? A resposta é … sim e não.

Explico: o Pac-Man do Atari é mesmo uma péssima conversão do original dos arcades. É fato público e notório que o jogo foi encomendado às pressas para o programador Tod Frye, que recebeu a missão de fazer uma versão que coubesse num cartucho com memória de 4 Kbytes. Já haviam cartuchos de 8 Kbytes no mercado, mas a Atari queria que o jogo fosse feito num cartucho de memória menor por causa do custo mais baixo de produção. A empresa ambicionava produzir 12 milhões de cópias do cartucho, pois a lógica era de que todo e qualquer proprietário do console Atari iria comprar uma cópia do Pac-Man. Tod Frye cumpriu a missão e desenvolveu todo o game em apenas seis semanas.

Tecnicamente, a ROM do game original dos arcades tinha 16Kbytes (quatro vezes mais do que a versão Atari). Além disso, o arcade de Pac-Man tinha 2 Kbytes de RAM para uso geral e de vídeo, enquanto que o Atari 2600 tinha apenas 128 bytes (16 vezes menos). Em outras palavras, embora o jogo de Frye tenha deixado muito a desejar em relação às expectativas da época, uma coisa é certa: o Atari 2600 não teria condições de rodar o Pac-Man original dos arcades nem que a vaca tussisse e pedisse desculpas depois.

Na prática, o que ficou diferente na versão do Atari? A lista vai longe: os efeitos sonoros e as breves musiquinhas que caracterizavam o game original sumiram nessa adaptação doméstica, e deram lugar a dois ou três barulhinhos. Os fantasmas, que no original tinham nomes e cores distintas, se tornaram genéricos e indiscerníveis um do outro. Pior: no Atari, eles ficam piscando o tempo inteiro. A explicação para esse “fenômeno” é simples: na verdade, os quatro fantasmas nunca aparecem na tela ao mesmo tempo. Por economia de memória, cada fantasma só aparece um de cada vez, de forma intermitente. Como isso ocorre rapidamente, a ilusão visual que se cria é de que todos aparecem ao mesmo tempo piscando.


Outra “heresia” do Pac-Man do Atari é que a geografia do labirinto foi profundamente alterada. As pílulas viraram cubinhos e as frutinhas no meio do labirinto viraram um cubo marrom com um detalhe amarelo no meio. Por fim, as “cut scenes” que apareciam depois de cada duas ou três fases tomaram chá de sumiço na versão caseira.

Enfim, dá pra ver que a reclamação da crítica e do público na época não foi sem motivos. Enquanto conversão do viciante jogo do arcade, a versão de Pac-Man para o Atari era mesmo pavorosa, matada e chinelona até dizer chega. E ainda tem um fator que ajudou a piorar a situação do Atari: na época, em alguns países como Estados Unidos, já estava ocorrendo a popularização dos microcomputadores domésticos, muitos dos quais iriam contar com versões bem superiores de Pac-Man (a versão do game para o Commodore 64, por exemplo, era muito superior a do Atari e saiu apenas um ano depois, em 1983). Resultado: a crítica caindo de pau em cima do jogo do Atari e consumidores revoltados devolvendo o jogo nas lojas em massa.

Pac-Man no Commodore 64: bem mais próximo do visual do game original dos arcades.

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Bem, mas então o Pac-Man do Atari é um game RUIM? Não, nem de longe. Na verdade, o game é um dos títulos mais legais de toda a biblioteca de jogos do console. Ele frustrou os consumidores dos países desenvolvidos, que já conheciam o game original dos arcades há dois anos e que tinham a expectativa de uma adaptação fidedigna. Aqui no Brasil, por exemplo, a coisa não foi bem assim. Por aqui, na primeira metade dos anos 80, não havia uma profusão de microcomputadores popularizados para competir com o Atari. As crianças dos anos 80 como eu não julgaram o Pac-Man do Atari por sua fidelidade ao original do arcade, mas sim por seus próprios méritos e qualidades. E a verdade é que o game era divertidíssimo e muito viciante. Toda a ação que tornou o game lendário para sua época estava lá: o carismático protagonista, os fantasmas, a correria pelo labirinto, as pílulas que faziam Pac-Man virar um comedor de fantasmas, os “túneis de escape” que faziam o personagem sair pelo outro lado da tela, a luta por um high score melhor e por aí vai.

Para quem morava nos EUA, tinha um microcomputador em casa e/ou frequentava casas de fliperama, a versão de Pac-Man do Atari pode ter sido vista como uma porcaria precária e inaceitável. Para quem era criança no Brasil, jovem demais para ir em fliperamas e sem qualquer outra opção de entretenimento eletrônico além do videogame mais popular da época, a versão de Pac-Man (ou Come-Come, como carinhosamente era chamado por todo mundo) para o Atari é uma memória lendária da infância e um ícone tão importante quanto o próprio personagem. Nós tínhamos em casa o jogo de videogame definitivo daqueles tempos. Éramos felizes – e sabíamos!
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Essa era uma das versões nacionais do cartucho do Pac-Man do Atari, fabricado pela CCE para a sua linha Supergame (que era um dos clones nacionais do Atari). Apesar do visual mongolóide e da completa descaracterização do personagem, eu adoro essa ilustração por questões afetivas, pois era esse o cartucho que eu tinha quando criança.

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Existe um certo consenso entre os cientistas de que a ilustração de Pac-Man mais RETARDADA de todos os tempos é esta da versão do jogo para o microcomputador Atari 800. Repare: 1 – nos inexplicáveis braços e pernas do personagem; 2 – nas paredes de castelo; 3 – na ridícula camiseta; 4 – na expressão acéfala do herói; 5 – na bermudinha e nos tênis; 6 – nas pastilhas que VOAM. Por último, mas não menos importante: 7 – quem diabos teve a ideia de colocar esse DENTINHO de abobado no Pac-Man, meu Deus do céu?!?!?

14 pensamentos sobre “PAC-MAN (1980, Arcade/ 1982, Atari 2600)

  1. Pac-Man foi meu primeiro jogo, no Atari 2600 (na verdade, um SuperGame CCE).

    Clássico imortal, muito jogado.

    Só quando comparado com a versão original dos fliperamas, esta versão do Atari mostra suas deficiências.

    A versão do Atari era divertida e viciante, tanto quanto a versão original dos fliperamas.

    Vida longa a Pac-Man!

  2. Pois é, eu concordo com você: o jogo está longe de ser ruim. Minha situação foi exatamente igual à sua. Eu nem sabia que existia Pac-Man para arcade, então para mim a versão do Atari era excelente. Claro, hoje eu vejo os defeitos todos.

    O único porém no meu caso é que eu tive um Odyssey, e jogava direto este joguinho aqui:

    Que, obviamente, é uma cópia descarada do Pac-Man, só que com gráficos e efeitos sonoros melhores e fases variadas, com pastilhas móveis e coisas do gênero. Eu gostava ainda mais!

  3. Mesma coisa aqui, você está certíssimo: no Brasil, conhecíamos Pac Man pela versão do Atari 2600. Eu nunca vi a versão real dos arcades.

    Mas nos states & cia ele tinha aquela popularidade estrondosa já conhecida. Outro dia mesmo, atendi um cliente de informática de seus 60 anos de idade, americano; ele me contou que tinha sua própria máquina de Pac-Man, na época do sucesso dos arcades mesmo; conseguiu comprar na mão de um arcade recém-fechado e teve de viajar para outro estado para ir buscá-la. Daí você tira a popularidade do jogo. Ele sequer jogou outros jogos depois disso, tipo nem virou gamer; Mas tinha sua própria máquina de Pac-Man. Ele disse que está na casa da mãe até hoje e já sabe do valor financeiro dela🙂

    E o clone do Odyssey o tal do Crazy alguma-coisa-que-não-lembro-agora que a Philips do Brasil batizou de Come Come era realmente mais completo como jogo.

    Como eu tinha Atari 2600 e era doido por ele, lembro que no alto dos meus 7 anos não gostavam quando chamavam Pac-Man de Come Come. “É Peque Men, meu filho!!!” eu retrucava eheheheheheh

    Ah, e o flicker dava um charme especial à versão do Atari: eles eram fantasmas, afinal!🙂 Mas acho que a limitação não era memória, e sim sprites simultâneos – já que o Atari foi desenvolvido para jogos como Pong ou Combat em mente que não tinham mais do que 3 sprites.

    Ótimo post! Hoje de noite, uma jogadinha rápida de Pac-Man no Atari original para relembrar – garantido!🙂

  4. Não tenho nada especial para falar de Pac-Man.
    Joguei muito a versão de Ms. Pac Man para supernes.
    Nada mais.

    Excelente Texto, muito detalhado. Gostei mesmo.
    Arrasô!

    • Essa versão também foi a que mais joguei, tanto no meu velho SNES, quanto naquelas máquinas de arcade que não passavam de um SNES dentro de um gabinete com um temporizador (cada ficha valia 10 minutos de jogo).

  5. Também com o procesamento de 16 bits do Snes, tinham mesmo que fazer um jogo muito bom.

    Acho que o Pacman do atari era o que se podia fazer com a tecnologia da época. um ou outro capricho a mais não ia satisfazer os sedentos do fliperama.

    Basta lembrar que a “era de ouro dos labirintos” veio uma geração depois (nos oito bits) com jogos como bomberman e tank

  6. Eu também confesso que não acho que o “flick” dos fantasmas seja algo assim tão horrível. Era um efeito condizente com a natureza fantasmal dos personagens. E o Gagá tem razão quando diz que o KC Munch do Odyssey 2 era melhor, eu também tive contato com esse game na infância e fiquei babando. Até hoje, é o único GRANDE game do Odyssey que eu conheci.

  7. Alguém aí, sabe informar o nome da pessoa que ilustrou os cartuchos da CCE? Há anos procuro informação sobre isso, mas nem mesmo a fábria me forneceu muita coisa, apenas que é uma mulher e que mora em Guarulhos.

    AJUDEM AÍ!

  8. olha galera, tive isso na minha epoca de garoto, achava maravilhoso, e fui evoluindo com o jogo e com os consoles que se tornaram coisa de bicho, ainda guardo varias verçoes aqui em meus emuladores, tenho tudo arquivado,

  9. saudade daquele pac man antigo come come que vinha no dactar com a fita de quatro jogos pac man em linhas reta quando acabava de comer os pontinhos escovava os dentes se alguem lembra me indique aonde eu acho betonegao@bol.com.br Obrigado !!!!!!!!!!!

    • Roberto, o game que você procura é o “Jawbreaker” do Atari 2600. Continue acompanhando as etapas da nossa Maratona Atari, não vai demorar para Jawbreaker ser um dos jogos resenhados por aqui. Abraço!

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